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Sobre o HallowFestival'05

Esta página serve meramente o propósito informativo, pelo que o seu conteúdo é tornado público apenas após a data da realização dos eventos mencionados. Não existem aqui quaisquer objectivos provocatórios gratuitos. Trata-se apenas de uma crítica fundada, e uma reflexão sobre um aspecto fundamental da evolução da música dita não-comercial ou independente: os concertos.

O HallowFestival’05 começou a ser programado no início do ano, nos primeiros dias de Janeiro. Depois de um pequeno mas excelente festival em 2004 não haviam dúvidas de que o evento deveria manter-se, e mais ainda, deveria mesmo evoluir. O programa estabeleceu-se em dois dias de festival, com cinco bandas no primeiro e quatro no segundo, a que se seguiria uma festa de discoteca na conclusão do evento.

A estratégia era simples e efectiva: para reunir um maior número de bandas, nove ao todo distribuídas por dois dias, e de forma a tornar-se economicamente sustentável um evento desta dimensão, seria imperativo a inclusão de duas bandas ditas “cabeças-de-cartaz”, pela sua projecção em termos de audiência em Portugal. Dessa forma seria possível levar a cabo um programa de proporções inéditas, em termos nacionais.

Ao longo dos primeiros meses do ano foram-se seleccionando as bandas que estariam activas e disponíveis para integrar o festival, tendo em vista não só um programa equilibrado e pertinente, como também a eleição das duas bandas principais que teriam o duplo papel de estruturar o evento.

Com antecedência de vários meses da data do festival, já todos os aspectos essenciais relacionados com a logística necessária para o evento estavam tratados, incluindo a coordenação de meios e o planeamento da promoção, e estava-se em fase de acordo com as principais bandas. No entanto, no período seguinte sucederam-se negociações paralelas por parte de diversos agentes promotores, visando a produção de concertos a solo com as duas principais bandas previstas. A competição decorrente das referidas negociações, a que estavam alheias as próprias bandas, e que diziam respeito exclusivamente aos agentes envolvidos tanto das bandas como os promotores, resultaram na inevitável anulação do programa previsto para o festival por serem agendadas as duas principais bandas em datas isoladas.

O HallowFestival’05 poderia ter sido cancelado, mas acabou por ser realizado com um programa mais humilde face ao inicialmente previsto e anunciado. Foi mesmo assim um evento brilhante, mas que falhou em alguns dos objectivos traçados no início do ano. Falhou a oportunidade de reunir um excelente grupo de bandas com uma audiência que teria certamente todo o interesse em descobrir outras bandas da cena alternativa pelo facto de actuarem num evento com as chamadas bandas consagradas.

Quem viu THE YOUNG GODS ou THE MISSION UK, e não se terá apercebido do facto de ambos os concertos terem sido realizados em datas tão próximas do HallowFestival’05, viu sem dúvida um ou outro bom concerto, de uma ou outra banda das melhores e mais representativas da cena alternativa internacional. Mas perdeu a rara oportunidade de ver ambas inseridas num programa de nove bandas, de conhecer outras propostas tão interessantes como essas, diferentes sem dúvida, mas integradas nos mesmos contextos, e por isso importantes.

Perdeu-se uma oportunidade importante. Talvez apenas porque o preço a pagar por um concerto isolado seja semelhante ao de nove concertos? É certamente um factor predominante neste caso, em que a especulação é levada ao extremo, em que a possibilidade de fazer parte de um espectáculo mítico é preterida pela perspectiva efémera e meramente comercial, ainda por cima pouco económica para o público e por isso injustamente selectiva, e porque a competência dos agentes envolvidos está na proporção directa da rentabilidade que podem atingir com os seus negócios. E será que nesse contexto negocial se consegue fazer progredir a cena alternativa? Fica a contradição óbvia. E fica também justificada a razão de ter sido anunciado um grande festival, que inevitavelmente não passou de um projecto.

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2005.11.13